Deixem as crianças serem crianças!

De há uns tempos para cá que as crianças menos tempo têm para brincar e viver momentos típicos da infância para passarem a lidar com as questões mais sérias, mais adultas.
Cada vez mais cedo têm que decidir o caminho a tomar.
Cada vez mais vivem o que não devem nem podem viver e menos tempo conservam a importante tarefa de serem o que são - crianças.

Miguel Portas e Francisco Louçã estiveram anteontem com trabalhadores de mais uma fábrica que foram despedidos ou estão em vias de o serem.

Não, não escrevo para considerar como crianças os membros do BE ou os trabalhadores ou o patronato, mas sim para algo que vi.
O facto de nem estarem aqui presentes os factos concretos da notícia mostra que não é por aí que me interessa denunciar o que me vai no pensamento.

O que acho incrivel deve-se ao facto de um senhor levar as suas duas filhas - uma ao colo com não mais que 3 anos e a outra não teria mais que 5, 6 anos - para uma manifestação/"espera", queixando-se precisamente de a sua situação ser ainda mais complicada por causa «destas duas».
Se a de colo não percebeu na sua totalidade, a mais velha, a ver pela sua expressão sentia precisamente o que o pai estava a passar. Ou pelo menos sabia que algo não estava bem.

Que mal fizeram estas miudas para estarem a presenciar um momento daqueles?
O que passa pela cabeça de um pai - e daqui não me tiram a ideia - para usar as filhas para dramatizar ainda mais a questão?

Este mundo já está estupido em demasia para que as crianças tenham também que viver nele. O direito das crianças é serem isso mesmo - crianças.
Se há coisa que sei acerca da infância é que é nessa altura que tudo é puro, em que preocupação e responsabilidade são coisas que não existem.
É a altura certa para viver e crescer. É a idade mais importante das suas vidas.
Os problemas ficam para os adultos.

Como a Pronúncia me respondeu a certo comentário, «a geração de hoje é, como o foram as anteriores a ela, um refexo da geração que as educa».
Pois se isto é verdadeiro - ou pelo menos com isso concordo - não quero imaginar o que será das gerações que estão agora na fase da adolescência e da infância.

Enquanto isso, vou-me agarrando às minhas memórias...

13 comentários:

rosebud disse...

Como diz o outro, assino por baixo.

Gingerbread Girl disse...

Tens toda a razão...
Acho que os pais acabam por cometer muitos erros dos quais não fazem ideia.

É a lei da vida... acabaremos por cometer erros com os nossos filhos também, julgando estarmos a fazer o melhor para eles.

*

Treze disse...

rosebud,

sê bem-vinda(o) ao tasco :)

Treze disse...

Ginger,

erros ainda vá que não vá, desde que se tenha consciência que nos estamos a esforçar pelo melhor deles.
Agora servirem-se dos filhos como arma de arremesso é que é condenável (e não falo do texto...)

Maria...ia disse...

Não concordo com o facto de exporem as crianças. No entanto, são elas as primeiras a sofrer com a situação, e quando quem de direito não se dá ao trabalho de sequer pensar nelas - aliás, faz questão de mostrar escolas felizes e crianças pululantes, de Magalhães na mão -, cabe aos pais lutar pelos seus direitos. Quando os mesmos não têm trabalho, a criança passa fome... E eu acho que é nesse sentido que deveremos entender a atitude do pai. É um choque emocional, é certo, mas a fome é bem mais triste. E só sabe dar verdadeiro valor a esta situação quem realmente passou por ela. Por isso digo e afirmo que vivemos num país de Hipócritas, com H grande.

;)

Treze disse...

Maria,

como é óbvio, as crianças sofrem sempre com os males dos pais, sei disso.
Mas não é perante a perspectiva da fome ou da falta de que as crianças vão padecer que concordo com o "uso" delas para chocar ou enfatizar a horrivel situação do desemprego.

Princesa (des)Encantada disse...

Sinto-me inclinada a concordar com a Maria. A intenção daquele pai pode não ter sido uma "chantagem emocional" mas antes uma tentativa de "mostrar" a extensão da realidade que esta situação afecta.
É verdade que as crianças merecem ser apenas crianças, merecem viver a sua infância sem grandes preocupações, mas também não se lhes pode esconder a realidade. É um equilíbrio dificílimo, e digo com conhecimento de causa, de uma mãe que teve de explicar a uma criança que ainda não tinha 3 anos que os pais se íam divorciar. Foi uma angústia e uma dúvida, mas o conselho dos peritos é ser verdadeiro, apenas adaptando a linguagem para uma que eles entendam, e tentando trabalhar ideias e conceitos no plano afectivo e não no plano intelectual (no meu caso, devido à idade dele sobretudo).
Os nossos pais erraram connosco, comos os nossos avós erraram com os nossos pais, e como nós erramos com os nossos filhos, e por aí fora. É inevitável. A única diferença é que, geralmente, os erros são diferentes de geração em geração, porque pelo menos aqueles que sentimos como erros tendemos a não repetir... :)

Treze disse...

Princesa,

precisamente! A relação dos pais com os filhos deve ser essa mesma - haver confiança e ser verdadeira. Mas continuo a dizer que não concordo com o que aconteceu.
Toda a gente - refiro-me a nós, comuns cidadãos, e não a quem governa e tem responsabilidades - sabe que a grande maioria tem familia dependente. A ver pela cara das miudas, continuo a achar desnecessário. Como disseste, há formas de comunicar e não creio que fazê-lo daquela forma seja a ideal, ainda que seja a real.

Maria...ia disse...

Compreendo a tua posição, no entanto alerto para o facto de existir já muito desespero. E em desespero e sem pão muito dificilmente as pessoas têm consciência do que está certo ou errado. Aliás, se os pais não têm trabalho, que futuro terá aquela criança? Situação ideal ou não, é preciso muita sensibilidade para tratar destas crianças, mas também se pede compreensão para os pais. Quem se vê nelas... É que sabe.

;)

Treze disse...

Maria,

pois... Suponho que sim.

Pronúncia disse...

Treze, cada vez mais as crianças são menos crianças e crescem mais depressa. O que é uma pena, porque é bom ser criança e só nos apercebemos disso quando já somos adultos.

Quanto à situação que relatas, numa primeira análise teria a mesma reacção que tu. Mas deixo o benefício da dúvida. Não deixa no entanto de ser uma situação constrangedora para a filha.

Fiquei lisonjeada com a frase com que terminaste o texto (a negrito e tudo)... tu estragas-me com mimos ;)

Treze disse...

Pronúncia,

ora essa! Estrago-te lá eu com mimos. Fez-me sentido e aproveitei-a :)

Moyle disse...

a maneira como tratam as crianças é, frequentemente, doentia e criminosa e, este caso, não foge à excepção. essas duas meninas foram sujeitas a uma violência enorme e usadas como arma de arremesso... depois queixam-se de que as gerações mais novas são isto e aquilo.